MAESTRO EVANDRO BISPO EXPLICA OS MOTIVOS QUE O LEVOU A AGRADECER A REGÊNCIA DA FILARMÔNICA EM LARANJEIRAS.

Maestro Evandro de Jesus Bispo
| Foto: Arquivo pessoal
Laranjeiras/SE (16-08) - Precisamente no dia 06 de agosto, fiquei sabendo por um amigo e membro da Filarmônica, Ayslam dos Santos Cruz, que o então Maestro Evandro iria sair da banda, questionei Ayslam se ele sabia o motivo pelo qual o maestro iria sair, ele não soube me explicar os reais motivos.

Após sua saída ser confirmada a frente da Filarmônica, procuramos o maestro na sexta-feira(12),  para que viesse a público, através de uma entrevista no Blog Espaço da Notícia explicar os motivos que o fez entregar o cargo de maestro da Filarmônica Sagrado Coração de Jesus de Laranjeiras.


BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: Bom dia MAESTRO EVANDRO, é um prazer recebê-lo para uma pequena entrevista, ou melhor dizendo um bate papo.

EVANDRO: Bom dia, eu é que agradeço o interesse do Blog Espaço da Noticia. Para mim é sempre um prazer poder conversar sobre a nossa tão amada Laranjeiras.

BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: Como e quando surgiu o interesse pela música e pelos instrumentos musicais.

EVANDRO:: O interesse surgiu por volta dos nove anos de idade, quando tive meu primeiro contato com um instrumento: uma flauta doce. O som do instrumento exerceu sobre mim grande fascínio. Mas a oportunidade de estudar música só me apareceu aos 14 anos de idade, quando ingressei na escolinha de música da nossa Filarmônica Coração de Jesus, tendo aulas de teoria musical com Sandro Luis Zuzarte, exímio saxofonista, e hoje secretário municipal de finanças. Foram três meses e dezesseis dias de intenso estudo teórico até o primeiro contato com o Bombardino, instrumento que toco até o dia de hoje. E após duas semanas incomodando os vizinhos da rua onde residia com o estudo constante do instrumento, passei a ensaiar com a Filarmônica. Estava iniciado o namoro com a primeira das artes. Um ano depois, em 1991, iniciava como autodidata o estudo do Orgão de Tubos, o rei dos instrumentos. Foram quinze anos atuando como organista da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, onde também, entre os anos de 1996 a 2006, fundei e dirigi o Coral Senhor dos Passos. Neste ínterim, as musas Euterpe e Polímnia me conduziram a vários outros instrumentos, como o trombone, o piano, e o violão, entre outros.


BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: Recentemente soubemos que entregou, ou agradeceu o cargo de Regente da Filarmônica Sagrado Coração de Jesus. Quais os motivos que fizeram você agradecer esse cargo?

EVANDRO:: Acho de suma importância a colocação desta pergunta porque, sendo a Filarmônica Municipal Coração de Jesus um órgão do poder público municipal, é dessa forma uma banda de música que pertence a todos os laranjeirenses. Sendo assim, é justo que a comunidade conheça a situação desta agremiação musical. No documento em que comuniquei a decisão de afastar-me das funções de regente ao secretário de educação, meu chefe imediato, eu a fundamento na falta de recursos técnicos e humanos. Explico:
Do ano de 2008 até o momento em que entrego o cargo de maestro, sucessivas ondas de demissões, algumas à pedido, me deram a baixa de 22 funcionários. Neste período não houve a contratação de ninguém. A nossa Filarmônica não possui efetivo suficiente. Alguém poderia questionar: e o concurso? Não foi feito concurso para músicos? Das 50 vagas oferecidas pelo concurso realizado, apenas 14 foram preenchidas. O motivo? O salário mínimo, oferecido no Edital do concurso. No mesmo edital, haviam cargos para os quais era exigido apenas o ensino fundamental incompleto, mas com o salário maior que o ofertado para os músicos. Esse foi o motivo porque para muitos tipos de instrumentos não houve sequer quem fizesse inscrição no concurso. 50 vagas, 14 aprovados, nenhum excedente, e mesmo entre os aprovados que assumiram o cargo de músico alguns já abandonaram o emprego por terem sido aprovados em outros concursos onde o salário era mais vantajoso.
Outra questão é o problema dos instrumentos. O instrumental de nossa Filarmônica está completamente sucateado. A vida útil de alguns instrumentos, sem que o mesmo necessite de reparos, não chega a um anos e meio, dois anos no máximo. Neste período em que estive à frente da Filarmônica a Prefeitura Municipal não adquiriu nenhum instrumento de sopro. Os músicos na maioria das vezes tocam com seus instrumentos particulares. Para que a Filarmônica pudesse se apresentar, em vários momentos eu tive que recorrer ao auxílio de amigos músicos, e a maestros de outras bandas do estado para solicitar instrumentos emprestados.
A Filarmônica necessita de uma sede com instalações físicas adequadas. No presente momento, divide espaço com a banda de Fanfarra, também da Secretaria de Educação. O espaço ocupado no Centro de Tradições é pequeno e insalubre.
Dada a situação de nossa Filarmônica, embora sendo regente, para que a banda pudesse atuar, eu tinha que ser também o copista, arranjador, compositor, e até mesmo instrumentista. Mas a contratação de músicos que preencham o quadro, a compra de instrumentos musicais, e a alocação da banda em espaço físico condizente com as suas necessidades, condições que são necessárias para a produção de um trabalho musical de qualidade, não estão na alçada do maestro.  E como a resolução de tais problemas não é competência do mesmo, desde o primeiro momento apresentei tais petições à gestora municipal. A prefeita sempre se mostrou sensibilizada com tais questões, demonstrando todo o interesse em resolver essas demandas, inclusive se lançando em busca de parcerias para uma solução. Mas o fato é que, até o momento em que entrego a função de regente, pouco ou quase nada foi feito.
Somado a tudo isto, há algum tempo, notando que a o salário do regente passou a ser o mesmo que o dos colegas músicos, sem nenhuma gratificação, procurei pela cópia da portaria que me nomeava regente da Filarmônica Municipal Coração de Jesus. Confirmando o que eu suspeitava, a área de Recursos Humanos da Prefeitura me informou que não havia nenhuma portaria. Ou seja, oficialmente a Filarmônica estava sem Regente. E como não cessavam as cobranças por parte da comunidade, que tem todo o direito de ver a sua briosa Filarmônica apresentar-se com todo o garbo nos eventos e solenidades, resolvi aceitar o convite a deixar o cargo, que indiretamente me era feito pelas circunstancias.


BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: Por quanto tempo você atuou como Regente da Filarmônica/

EVANDRO:: fui regente em um primeiro momento no período compreendido entre agosto de 1999 ao ano de 2005, e agora nesta segunda fase, do ano de 2008 ao dia 07 de agosto do corrente ano, dia de nossa emancipação política.


BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: Durante todo esse tempo que esteve a frente da Filarmônica como Regente, quais os melhores e piores momentos que você guarda como aprendizado para a vida profissional?

EVANDRO: não se abater, não perder a serenidade e nem a paz interior, mesmo nos piores momentos é o que São Francisco ensina ser a “perfeita alegria”. O artista é alguém que se enamorou pela beleza, e busca sempre levar o que há de mais belo para o seu público. Creio que posso falar em nome dos músicos que compõem a nossa banda. Mesmo com todas as dificuldades, não perdemos a paz e dentro de nossas possibilidades sempre procuramos dar o melhor de nós. Foram muitos momentos de dificuldades, mas não vejo nenhum deles como o pior. Pois, eram justamente nestas horas em que percebíamos o quanto é importante a coesão de um grupo artístico, o cultivo do bom relacionamento entre os colegas de trabalho. Os músicos que compõem nossa Filarmônica são altamente qualificados. Mas acredito que mesmo que tivéssemos a melhor estrutura possível para desenvolvermos o nosso trabalho, se nos faltasse o senso de unidade necessário a um grupo musical não seria possível a bela atuação de todos sob uma mesma batuta. Se com todas as dificuldade ainda mantivemos essa banda atuando foi porque todos fizemos sacrifícios, todos deram muito de si mesmo, por muito menos, tenho certeza, qualquer outra banda de música teria encerrado suas atividades, liderei um grupo de heróis. Assim, nossos melhores momentos foram experimentados em harmonia com as grandes dificuldades, quando apesar de tudo, ainda conseguíamos receber o apoio, o reconhecimento, e mesmo os aplausos do nosso povo.


BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: A Filarmônica por diversas vezes deixou de participar das procissões religiosas da Igreja católica, e esse assunto foi alvo de diversas críticas no meio da sociedade. Como você avalia esse assunto?

EVANDRO:: O fato das críticas despertadas pela ausência da Filarmônica em alguns dos nossos eventos religiosos me é motivo de alegria. Isso denota o amor e o carinho que o povo mantém pela sua banda de música, sentindo com pesar a sua ausência nas festividades. Como nem sempre os motivos eram os mesmos, acho interessante se elencar cada caso.
 A primeira situação ocorreu em uma Procissão em Pedra Branca. Naquela ocasião, a banda compareceu, mas além do pequeno efetivo, parte dos músicos estava sem instrumentos. Naquela ocasião eu não havia conseguido instrumentos emprestados. Os músicos que possuem instrumentos próprios sempre os utilizaram, mas nem sempre podemos contar com estes instrumentos. Há o caso de um músico que utilizou o seu instrumento pessoal durante anos na Filarmônica. Com o uso, hoje o instrumento necessita de um conserto que está custando o valor de R$ 2.000,00, e o salário não dá para cobrir. A banda acompanhou a procissão sem poder tocar. O mesmo aconteceu em uma procissão de Bom Jesus dos Navegantes e em uma Procissão de Nossa Senhora das Dores, no centro da cidade, em ambas a ausência foi pelo mesmo motivo.
A ausência da banda se fez notar outra vez em Pedra Branca, mas nesta ocasião a motivação foi o um problema com o ônibus da prefeitura municipal encarregado de efetuar o transporte da banda até o local da apresentação. No festa do Povoado Mussuca, neste ano, a banda compareceu, mas não pôde se apresentar. Chovia no momento da saída da procissão, e como os instrumentos da família das madeiras são bastante sensíveis, músicos que estavam com seus próprios instrumentos temiam pela danificação dos mesmos.

BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: Todos nós laranjeirense sabemos do seu potencial, seja artístico, educacional ou profissional, pois já comprovou através de suas ações do que é capaz. Maestro, quais seus projetos daqui para frente para sua terra Laranjeiras?

EVANDRO:: Tenho alguns projetos em andamento, voltados para a área do estudo e pesquisa da nossa riquíssima música folclórica e das obras de nossos compositores. Atrelado a isso pretendemos dar uma nova configurada na formação e no repertório da “Esquenta Muié”, a nossa banda de pífanos.

BLOG ESPAÇO DA NOTICIA: Maestro agradecemos esse seu precioso tempo para nos atender e deixar registrado os motivos de sua saída a frente da Filarmônica, por fim pedimos que deixe suas considerações finais.

EVANDRO:: Quem quer que seja o Maestro que venha a me suceder na condução da nossa Filarmônica, só poderá realizar um trabalho primoroso se antes lhe for assegurado, no mínimo, o atendimento destas três grandes condições intimamente entrelaçadas: A estruturação de um espaço físico que possa dignamente servir como sede para banda de música, a aquisição de um novo instrumental, e a contratação de músicos que possam preencher as lacunas existentes nos naipes por instrumento. De outra forma a nossa Filarmônica permanecerá na mesma condição.  Tais pendências, necessárias à revitalização de nossa banda de música, sempre foram por mim apresentadas ao conhecimento de nossa chefe do poder executivo. A Prefeita Ione Sobral tem externado a intenção de querer oferecer à nossa cidade a Filarmônica que merecemos ter. Que a chegada de um novo maestro traga consigo o fim das barreiras políticas, burocráticas e financeiras que possam impedir a nossa banda de alçar vôo. Que ela se torne efetivamente prioridade ao se pensar em música e cultura. Que sob os auspícios do seu orago, o Sagrado Coração de Jesus, nossa banda volte a poder oferecer apresentações de elevado valor artístico à nossa querida Laranjeiras, a Sergipe, ao Brasil.
O sentir-se manietado pela sensação de impotência me levou a abdicar do função de regente, mas não do amor à nossa banda, à nossa cultura, à nossa Pátria Laranjeirense.
Agradeço a todos os que em mim depositaram os votos de sucesso, e em especial ao Blog Espaço da Notícia pela oportunidade de tais esclarecimentos.
PAZ E BEM!






Um comentário:

  1. Ana Paula Cruz Ofs.17 de agosto de 2011 09:36

    Parabéns Vane, pela matéria!
    Parabéns ao Maestro, amigo, compadre e irmão Evandro, pelo trabalho que realizou na nossa Filarmônica e, obrigada por valorizar tanto a nossa cultura musical. Que Deus, por intercessão de Nossa Senhora das Dores, te abençoe e te guarde sempre!Vamos em frente, pois Deus está no controle de tudo! Paz e bem!

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