Aposentada perde umbigo em cirurgia

Muitos casos de erros em atos operatórios viram denúncias no Cremese

O sonho de fazer uma cirurgia plástica, seja para melhorar a beleza estética ou para resolver algum problema de saúde, muitas vezes pode se tornar um pesadelo. Foi o caso da aposentada Suzana Santos, que há anos aguardava por uma cirurgia de retirada de uma hérnia e de gordura abdominal pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e quando conseguiu acabou ficando sem o umbigo. “Foi um susto muito grande quando eu olhei e vi que estava sem o umbigo. Tento me conformar até hoje, mas eu não consigo. Confesso que eu não sabia que a pessoa podia viver sem o umbigo”, declarou.


A aposentada disse ainda que antes de fazer a cirurgia só usava maiô na praia, “para esconder o ‘barrigão’. Mas, agora, depois da cirurgia, achei que fosse usar biquíni porque ia poder mostrar a barriga, mas fiquei com desgosto agora que não tenho mais umbigo”, desabafou. Ela informou ainda que sente dores no lugar onde ficava o umbigo, “o que não me deixa esquecer que o perdi”, disse. Ela também acha que a cirurgia para retirada de gordura do abdômen foi mal feita. “Estou com um lado todo bem feito, sem gordura, mas o outro lado tem um bolo de gordura, está feio”, acrescentou.

O caso da dona de casa Maria de Lourdes Santos de Jesus, de 48 anos de idade, foi ainda pior. Ela morreu após uma cirurgia plástica de redução dos seios feita em uma clínica particular de Aracaju. A família, inclusive, disse que ia entrar na Justiça contra o médico, pois o acusa de ter sido negligente, já que a paciente era hipertensa. Além disso, o esposo de Maria Lourdes, o pedreiro aposentado Cícero Teixeira dos Santos, de 65 anos de idade, disse que pagou ao médico R$ 7,5 mil pela operação à vista.

“Ele sabia que ela sofria de pressão alta, mas mesmo assim quis operá-la. Eu avisei a ela que não fizesse, mas por causa da insistência acabei pagando a cirurgia”, disse. De acordo com ele, a esposa foi internada na clínica particular em uma terça-feira. Neste mesmo dia ela foi operada e chegou a óbito. Maria de Lourdes ainda chegou a ser transferida para um hospital particular por conta de complicações pós-operatórias. “Mas, ela já estava morta quando foi transferida”, disse Cícero.

Reclamações
Segundo o presidente da   Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional de Sergipe (SBCP/SE) e diretor do Conselho Regional de Medicina de Sergipe (Cremese), Hermano Marinho, nos últimos dez anos foram registradas nove denúncias contra cirurgiões plásticos no Cremese. Dessas, quatro foram referentes à insatisfação com o resultado de plástica na mama. “Por conta de cicatrizes com quelóide, ou necrose de mamilo”, frisou o cirurgião.

Outra reclamação foi pela insatisfação com o resultado de uma cirurgia para retirada de uma mancha na pele. “A pessoa queria retirar a mancha na pele e o médico não retirou”, explicou Hermano Marinho. Uma denúncia foi por venda de material médico (prótese de silicone) e outra por insatisfação com uma plástica no nariz. “Não ficou como a pessoa queria”, disse. Também tem uma denúncia que apontou erro médico na reconstrução de lábios do paciente.

“A pessoa teve câncer nos lábios e era preciso fazer uma reconstrução, que acabou não ficando como ela desejava”, ressaltou Hermano Marinho. A última denúncia contra cirurgião plástico registrada no Cremese foi feita pela família da dona de casa Maria de Lourdes. Todas geraram inquérito e em apenas dois processos os médicos foram julgados como culpados. “O número de denúncias é baixo no Cremese contra cirurgiões plásticos”, frisou ele, ao acrescentar que a SBCP não recebe denúncias. Os casos citados acima mostram que a maioria das denúncias partiram da insatisfação dos pacientes com o resultado das cirurgias.


“São queixas ou insatisfações com o resultado da operação. O que não quer dizer que se trata de erro médico”, explicou Hermano Marinho. Em uma cirurgia onde a cicatriz é queloidiana, por exemplo, o médico não tem como prever que isso vai acontecer. “A quelóide pode estar em todas as pessoas. Em algumas a cicatrização pode ficar ruim, em outras não. Não temos como saber. Por isso, muitas vezes chega uma paciente aqui querendo mexer em um seio que já é bonito e eu não faço a cirurgia porque sei que pode haver esse problema e o seio ficar feio”, detalhou.

Ele também apontou outro exemplo de cicatrização queloidiana. “Tem casos de uma pessoa ir à farmácia para furar a orelha. Em um dos orifícios pode haver quelóide e no outro não”, disse ele, ao frisar que por essas razões é que os médicos não podem prometer resultados satisfatórios. Além dos problemas com a cicatrização, em algumas cirurgias plásticas também podem haver complicações pós-operatórias, fibroses, reações do tecido, “que não tem como o cirurgião prever. São resultados não esperados e insatisfatórios, decorrentes da aspiração da paciente”, explicou.

Para Hermano Marinho, o erro está em o médico utilizar métodos que não são comprovados cientificamente. Assim como fazer uma cirurgia em um local onde o especialista não dispõe de todos os materiais necessários, não ter capacitação para fazer o processo cirúrgico e não fazer análise clínica e laboratorial. Não dar atenção ao paciente após a cirurgia também é erro médico. “Se a pessoa apresentar um sangramento após a cirurgia, não é erro médico. É complicação pós-operatória. Nesse caso, o erro está em o médico não dar atenção ao paciente. As pessoas precisam parar de achar que todas as insatisfações são por erro médico”, explicou.

Ele ressaltou ainda que não pode faltar uma explicação prévia ao paciente do que é possível e o que não é possível. “Hoje há uma cartilha – manual de informações compartilhadas – onde o médico informa ao paciente tudo que vai ser feito e o que foi feito para diminuir celeumas e brigas prévias. Acho que esse é um instrumento muito eficaz”, disse. O primeiro passo a ser tomado quando a pessoa decide fazer uma cirurgia plástica é escolher o médico e se informar sobre a origem dele. “Tem que ver se o médico é registrado na SBCP porque para ser especializado em cirurgia plástica ele tem que ser registrado lá. Assim como também deve ser registrado no CRM. O médico capacitado para fazer esse tipo de cirurgia é apenas o cirurgião plástico”, orientou Hermano Marinho.

Fonte: Portal JC.Net

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